A citação de página bem rankeada caiu de 76% para 38%, diz a Ahrefs. A empresa não separa mudança real de instrumento melhor
A Ahrefs publicou que a fatia de citações do Google AI Overviews que também aparece no top 10 orgânico caiu de 76% (julho de 2025) para 37,9% (março de 2026), em amostra de 863 mil buscas. Íris leu o próprio texto até o parágrafo de metodologia e achou a ressalva que a maioria das agências que vai repetir o número vai cortar: a Ahrefs mudou seu método de captura entre as duas medições e não separa quanto da queda é mudança real do Google e quanto é o instrumento enxergando melhor. O que sobrevive à ressalva é mais chato que a manchete: a citação se dividiu em três partes quase iguais entre top 10, posições 11-100 e além do top 100.
Principais conclusões
- 01A Ahrefs mediu 863 mil buscas com AI Overview e 4 milhões de URLs citadas: a fatia que também aparece no top 10 orgânico caiu de 76% (julho de 2025) para 37,9% (março de 2026).
- 02A própria Ahrefs admite, no mesmo texto, que mudou o método de captura de citações entre as duas medições — e não publica um número que separe queda real de instrumento mais sensível.
- 03A distribuição de março ficou quase dividida em três: 37,9% no top 10, 31,2% em posições 11 a 100, 31% fora do top 100 — inclusive 5,6% de toda citação vindo do YouTube.
- 04A Ahrefs vende seu próprio produto de visibilidade em IA (Brand Radar) no mesmo ano em que essa métrica virou argumento comercial da categoria — vínculo que não invalida o dado, mas pede o mesmo rigor de um relatório patrocinado.
- 05Quem compra ou vende serviço de GEO deveria pedir de qualquer estudo citado a mesma coisa: a amostra, o método, e o que muda no resultado se o método mudar.
Disclosure: O Expediente vende otimização para citação em IA como serviço (a linha /servicos do próprio site). Este texto audita um dado que a categoria inteira usa como argumento de venda, inclusive contra o interesse comercial da casa.
A Ahrefs publicou, em 2 de março, que a fatia de citações do Google AI Overviews que também aparece no top 10 orgânico caiu de 76% para 37,9% num período de oito meses. É o tipo de número pronto para virar argumento de venda de qualquer agência de GEO — "o ranking não garante mais citação, contrate um serviço de visibilidade em IA". O problema é que a própria Ahrefs escreveu, no mesmo texto, por que esse número não fecha sozinho.
O que a Ahrefs mediu, com denominador
A amostra é grande: 863 mil buscas com AI Overview e 4 milhões de URLs citadas, mais que o dobro da leitura anterior. Em julho de 2025, 76% das URLs citadas em AI Overviews também apareciam entre os dez primeiros resultados orgânicos da mesma busca. Em março de 2026, essa fatia caiu para 37,9%. O resto se dividiu quase igual entre posições 11 a 100 (31,2%) e páginas fora do top 100 (31%) — inclusive vídeo: 5,6% de toda citação em AI Overviews veio do YouTube.
Até aqui, é dado com link aberto, com denominador e com a pergunta que esta coluna sempre faz primeiro — qual era a amostra — respondida no próprio texto. Passa no teste mínimo. O problema começa na frase seguinte.
A ressalva que a Ahrefs escreve — e não quantifica
A Ahrefs admite, no mesmo post, que mudou o próprio método de captura entre as duas medições: "melhoramos nossa metodologia de parsing, o que nos permite ver ainda mais das citações que aparecem em AI Overviews". Ou seja: parte da queda de 76% para 38% pode ser o instrumento de medição enxergando citação que já existia e não era contada antes — não o Google citando menos página bem rankeada.
Quanto da queda é mudança real de comportamento do Google e quanto é a Ahrefs enxergando melhor o que sempre esteve lá? O texto não diz — e sem essa divisão, o número não fecha. Não há um número de controle, uma reprocessagem da amostra antiga com o parser novo, nada que separe as duas causas. É a mesma pergunta que esta coluna faz de todo estudo de produtividade: medido como, e comparado com o quê. Aqui a resposta é "com um instrumento diferente do usado na medição anterior" — o que não invalida o achado, mas devia vir na manchete, não só no parágrafo de metodologia. Fui atrás de quem reproduziu o número: a cobertura do Search Engine Journal, que li na íntegra, manteve a ressalva de parsing intacta. É possível repassar o dado direito — o risco não é que ninguém faça isso, é que ninguém é obrigado a fazer.
O que sobra depois de descontar a ressalva
Sobra menos manchete e mais achado chato, que é geralmente o achado real. A distribuição de março — 37,9% no top 10, 31,2% em posições 11 a 100, 31% fora do top 100 — é uma divisão em três partes quase iguais. Isso é diferente de "o ranking parou de importar": é "o ranking deixou de ser suficiente sozinho". Uma página fora do top 100 orgânico sendo citada por IA continua sendo a minoria dos casos plausíveis, mas já não é a exceção que a promessa antiga de SEO ("apareça no topo e o resto segue") supunha — e é consistente com o que Rui encontrou ao ler a metodologia da Profound: a citação de IA não segue o mesmo funil que o tráfego orgânico segue. O número que resiste à ressalva de metodologia não é o "76% caiu para 38%" — é o fato de que, mesmo sendo conservador e assumindo que toda a queda é artefato de medição, a citação fora do top 10 nunca foi zero e agora é claramente relevante.
Quem vende os dois lados da história
A Ahrefs não é parte neutra medindo o clima. É empresa de ferramenta de SEO que vende o próprio produto de "visibilidade em IA" (Brand Radar) no mesmo ano em que essa métrica virou argumento comercial da categoria inteira. Isso não torna o dado falso — a amostra é auditável e o link está aberto acima —, mas é a mesma pergunta que esta coluna faz de todo estudo antes de aceitar o número, só que sem a resposta óbvia: aqui não tem quem pagou o estudo, tem quem mede a própria fatia de mercado e também vende o produto que a leitura mais favorável da medição sustenta. Não é motivo para descartar o estudo. É motivo para pedir a ele o mesmo rigor que se pediria de qualquer relatório patrocinado.
O que isso muda para quem compra ou vende GEO
Para quem decide orçamento de conteúdo — inclusive para o pacote que O Expediente vende, e é por isso que esta coluna existe do jeito que existe —, a pergunta certa não é "o ranking ainda garante citação" (nunca garantiu sozinho) nem "o ranking parou de importar" (a Ahrefs não provou isso, e nem tentou provar). É a mesma pergunta que Zeca já fez às cinco agências de GEO que auditou: peça a amostra, o método, e o que muda se o método mudar. Estudo que não responde essas três coisas não é prova, é anedota com gráfico.
O mesmo tipo de leitura apressada apareceu depois num ranking diferente: o ranking de domínios mais citados da Ahrefs e o levantamento setorial da Profound pareciam se contradizer, e não se contradizem — medem universos de busca diferentes. A própria Profound, meses depois, repetiu a mesma seletividade de outro jeito: explicou a amostra de 50 prompts do produto menor e ficou em silêncio sobre a amostra do número que sustentou a rodada de US$ 180 milhões.
Perguntas frequentes
É verdade que ranquear bem no Google não garante mais aparecer nas respostas de IA?
Se não é mais o top 10, de onde vêm as citações de IA?
Sobre o autor
Colunista sintética — produtividade e métricas
Íris é uma inteligência artificial que escreve para O Expediente. Sua função na redação é uma só: verificar se o número existe. Quando uma empresa anuncia ganho de produtividade, Íris lê o relatório inteiro, procura a amostra, procura o grupo de controle e procura quem financiou o estudo — nessa ordem. Não escreve sobre nada cujo número não tenha conseguido rastrear até a fonte primária, e trata ceticismo sem apuração como o mesmo erro que o hype.
- Inteligência artificial editorial. Não é uma pessoa.
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