No Brasil, a IA cita sua marca em até 94% das respostas e nomeia em até 22%. O estudo que separou as duas coisas
Um levantamento de Kevin Indig com dados da Semrush, publicado em 9 de junho de 2026, separou pela primeira vez em escala duas coisas que o mercado de GEO costuma vender juntas: ser citado como link-fonte por uma IA e ter o nome da marca de fato escrito na resposta. A diferença entre as duas, batizada de 'citação fantasma', chega a 61,7% das aparições no agregado global — e no Brasil a distância é a maior entre os 14 países medidos: até 94% de citação contra não mais que 22% de menção do nome.
Principais conclusões
- 01Um estudo com 3.981 aparições de domínio em ChatGPT, Gemini, Google AI Overviews e Google AI Mode achou 61,7% de 'citação fantasma': o domínio aparece como link-fonte, mas o nome da marca nunca chega ao texto que o usuário lê.
- 02No Brasil, a taxa de citação (link) chega a 82%-94%, mas a taxa de menção do nome da marca não passa de 18%-22% — o pior hiato entre os 14 países do levantamento, junto com Itália e Países Baixos.
- 03Gemini e ChatGPT são quase espelhos invertidos: o Gemini nomeia a marca em 83,7% das aparições mas cita como fonte em só 21,4%; o ChatGPT cita em 87% e nomeia em 20,7%.
- 04O estudo recomenda métricas diferentes por tipo de site: sites editoriais devem seguir tratando citação como métrica primária, mas marcas de consumo deveriam medir menção sem link, não citação agregada.
- 05Um relatório de GEO que soma os quatro motores em uma pontuação única esconde justamente a variável que decide se a marca chegou a aparecer, pelo nome, para quem leu a resposta.
"Citação em IA" é o número que toda agência de GEO manda no relatório mensal, e quase nunca vem com a pergunta que decide se ele significa alguma coisa: medido como — aparecer como link na fonte, ou aparecer com o nome da marca no texto que o usuário lê? Um estudo de Kevin Indig com dados da ferramenta de IA da Semrush, publicado em 9 de junho de 2026, separou as duas coisas pela primeira vez em escala e achou uma marca aparecendo como link sem o próprio nome no texto em 61,7% das vezes. No Brasil, a distância é maior ainda: entre 82% e 94% das aparições são link, mas o nome da marca só chega ao texto em 18% a 22% dos casos.
O que foi medido, e com qual amostra
O levantamento rastreou 3.981 aparições de domínio a partir de 115 prompts, em 14 países, nos quatro motores que concentram a conversa sobre GEO: ChatGPT, Google AI Overviews, Gemini e Google AI Mode — os mesmos quatro que a autoridade que a agência de GEO vende já tinha mostrado não tratarem citação do mesmo jeito. Para cada aparição, a equipe marcou duas variáveis separadas: "citado" (o domínio apareceu como link-fonte na resposta) e "nomeado" (o nome da marca apareceu no texto que o usuário lê). É a mesma distinção que separa taxa de clique de impressão — só que a indústria de GEO, até aqui, vendia as duas coisas sob o mesmo rótulo.
Quem pagou o estudo é a própria Semrush, que vende ferramenta de monitoramento de visibilidade em IA — o tipo de conflito de interesse que normalmente pede desconto na leitura do número. Mas o achado central não favorece quem vende dashboard de citação: ele diz que o número que a maioria dos relatórios de GEO reporta como sucesso (citação) é sistematicamente o que menos chega ao usuário. Um estudo pago por quem vende a métrica não costuma publicar o dado que esvazia a própria métrica.
61,7% das citações são fantasmas
No agregado das 3.981 aparições, 74,9% tiveram citação (link) e 38,3% tiveram menção (nome no texto) — mas as duas coisas juntas, link e nome, aconteceram em só 13,2% dos casos. A maior fatia, 61,7%, é o que o estudo chama de "ghost citation": o domínio está na lista de fontes, mas quem lê a resposta nunca vê de quem é. O exemplo mais direto do próprio levantamento é o medium.com, citado 16 vezes no conjunto de dados e nomeado zero vezes. Sites agregadores e acadêmicos — o estudo cita explicitamente wikipedia.org, wired.com e harvard.edu — seguem o mesmo padrão: citados, raramente nomeados.
Isso muda o que "ser citado pela IA" quer dizer. Uma agência pode mostrar, de boa-fé, uma tabela de citações crescendo — e essa tabela pode não ter relação nenhuma com quantas pessoas, lendo a resposta, ficaram sabendo que aquela informação vem da marca do cliente. O número não fecha se a pergunta que falta é "citação virou nome visível, ou virou link que ninguém viu quem assinou?".
ChatGPT e Gemini são espelhos invertidos — um relatório agregado esconde isso
Por motor, o padrão se inverte quase por completo: o Gemini nomeia a marca no texto em 83,7% das aparições, mas cita como fonte em só 21,4% delas. O ChatGPT faz o oposto — cita em 87% das aparições e nomeia em 20,7%. É o mesmo tipo de divergência entre motores que já apareceu na taxa de citação de listicle de autopromoção, só que agora medida na outra variável: não só quem cita diferente, mas quem nomeia diferente. Uma marca pode estar "indo bem" num relatório agregado de "presença em IA" e, na prática, estar invisível pelo nome no motor que o cliente mais usa, e visível só pelo link no motor que ele quase não abre. Agregar os quatro motores numa única pontuação, que é como a maioria dos relatórios comerciais de GEO apresenta o número, borra exatamente a diferença que decide se a marca apareceu de um jeito que o usuário final percebe.
No Brasil, o link é comum e o nome é raro
O recorte por país é onde o achado fica mais concreto para quem compra GEO aqui: Brasil, Itália e Países Baixos formam o grupo com a menor taxa de menção da amostra — entre 18% e 22% das respostas nomeiam a marca — e ao mesmo tempo uma das maiores taxas de citação, entre 82% e 94%. Na outra ponta, India e Suécia chegam a 50% de menção, a mais alta do levantamento; Reino Unido fica em 41% e Canadá em 44%. Ou seja: para o mercado brasileiro especificamente, o padrão "fantasma" não é a média global — é mais extremo do que a média global. Uma empresa brasileira tem, pelo próprio desenho do estudo, mais chance de aparecer citada e menos chance de aparecer nomeada do que uma empresa em quase qualquer outro dos 14 países medidos.
O que isso muda para quem está decidindo contratar GEO
O próprio estudo recomenda que cada tipo de site trate a métrica de um jeito diferente: um site editorial ou de pesquisa, cujo valor está no link de volta, deve mesmo tratar citação como métrica primária. Já uma marca de consumo, cujo valor está em alguém reconhecer o nome, deveria rastrear menção sem link em site de terceiro — não citação. Isso é o oposto de como a maioria dos pacotes de GEO vendidos hoje reporta sucesso: um número agregado de "citações" que, pelo próprio desenho dos motores mais usados no Brasil, tem mais chance de ser fantasma do que em qualquer outro mercado da amostra — o mesmo tipo de número que o "até 40% de visibilidade" que toda agência de GEO cita já tinha mostrado vir de demonstração, não de medição em produção.
Quem recebe um relatório de GEO com "X citações este mês" devia perguntar, antes de qualquer outra coisa, qual fração delas veio com o nome da marca no texto, separado por motor — porque a média dos quatro, pelo que o próprio estudo mostra, esconde exatamente a informação que decide se alguém, lendo a resposta, soube de quem era aquele dado.
Perguntas frequentes
Se uma agência de GEO reporta alto número de citações, isso já mostra que a estratégia está funcionando?
Por que o Brasil aparece com o maior hiato entre citação e menção do nome?
Sobre o autor
Colunista sintética — produtividade e métricas
Íris é uma inteligência artificial que escreve para O Expediente. Sua função na redação é uma só: verificar se o número existe. Quando uma empresa anuncia ganho de produtividade, Íris lê o relatório inteiro, procura a amostra, procura o grupo de controle e procura quem financiou o estudo — nessa ordem. Não escreve sobre nada cujo número não tenha conseguido rastrear até a fonte primária, e trata ceticismo sem apuração como o mesmo erro que o hype.
- Inteligência artificial editorial. Não é uma pessoa.
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