O Expediente
Emprego e risco

A pesquisa que diz que sua equipe finge usar IA é vendida por quem lucra se você não confiar no que a equipe diz

A Visier, fornecedora de analytics de força de trabalho, publicou uma pesquisa em que 48% de 1.000 funcionários americanos admitem já ter exagerado o próprio uso de IA no trabalho. Zeca mostra que a mesma empresa vende o produto que promete medir exatamente esse exagero, lançou uma integração de produto 20 dias antes de publicar o achado, e que o relatório não divulga data de campo nem margem de erro — sem que isso signifique que o achado seja falso.

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Principais conclusões

  1. 01Pesquisa da Visier com 1.000 funcionários americanos encontrou 48% admitindo já ter exagerado o próprio uso ou domínio de IA no trabalho, e 45% sentindo pressão para usar a ferramenta mesmo sem confiança nela.
  2. 02Só 28% dos funcionários acham que a liderança entende de fato como a equipe usa IA, e 59% dizem que a empresa não tem plano claro para o efeito da ferramenta nos cargos (32% dizem que não há plano, 27% não sabem se há).
  3. 03A Visier, autora da pesquisa, vende software de inteligência de força de trabalho que promete medir o uso real de IA além do autorrelato — o mesmo problema que a pesquisa descreve — e anunciou uma integração de produto 20 dias antes de publicar o achado.
  4. 04O relatório não divulga data de campo, margem de erro nem o instituto que aplicou a pesquisa, apesar de vender rigor de medição como diferencial comercial.
  5. 05Taxas de adoção de IA citadas por executivos em resultado trimestral ou carta de corte de vaga vêm do mesmo tipo de autorrelato que a pesquisa mostra estar sujeito a exagero, sem isolar quanto desse número é real.

Quem ganha se você acreditar que a sua equipe está fingindo usar IA? A mesma empresa que vende o software para medir quem está fingindo. A Visier, fornecedora de analytics de força de trabalho, publicou em 22 de setembro de 2026 uma pesquisa com 1.000 funcionários americanos em tempo integral, batizando o fenômeno de "IA performática" — e o nome pegou. O problema não é o número. É que ninguém, nem a própria pesquisa, mede quanto da inflação que ela descreve está dentro dela mesma.

O número: quase metade admite exagerar

Segundo o relatório da Visier, 48% dos entrevistados admitem já ter exagerado o próprio uso ou domínio de IA para colegas ou liderança "pelo menos parte do tempo". 45% dizem sentir pressão para usar IA mesmo sem confiança de que estão usando bem. Só 28% acham que a liderança entende de fato como a equipe usa a ferramenta, e 59% dizem que a empresa não tem um plano claro para o efeito da IA nos cargos — ou não sabem se tem (32% dizem que não há plano, 27% não sabem se há). Apenas 21% concordam fortemente que a empresa oferece o treinamento necessário para lidar com a mudança.

Quem fez a pesquisa, e o que a Visier vende

A Visier não é uma consultoria neutra medindo clima organizacional por curiosidade — é uma fornecedora de "inteligência de força de trabalho" cujo produto promete exatamente o oposto do que a pesquisa descobre: visibilidade real sobre o que as pessoas fazem, não sobre o que elas dizem que fazem. A própria pesquisa é assinada por Andrea Derler, "principal researcher" da empresa. O recibo está aqui: 20 dias antes de publicar o achado sobre "IA performática", em 2 de setembro de 2026, a própria Visier anunciou uma integração do produto com o Microsoft Viva Glint para vender exatamente esse tipo de visibilidade. Isso não invalida os números da pesquisa — mas é o tipo de vínculo que esta coluna sempre declara antes de usar um dado: quem mede o problema de "você não sabe o que sua equipe realmente faz" tem produto para vender a quem acreditar nisso, e lançou esse produto na mesma janela em que publicou o achado.

A lacuna de método que a Visier não preenche

O relatório não divulga data de campo, margem de erro, nem o nome do instituto terceirizado que aplicou a pesquisa — só o tamanho da amostra (1.000 funcionários) e que houve entrevistas qualitativas complementares em saúde, finanças e RH, sem numerar quantas. Para uma pesquisa que vende rigor de medição como diferencial comercial, faltar justamente o rigor de método da própria pesquisa é a contradição que mais pula aos olhos.

O placar: todo número de adoção alta tem alguém torcendo por ele

Isso importa além da Visier. Executivos citam a própria taxa de adoção de IA — quase sempre alta, quase sempre autorrelatada pelo mesmo time que a pesquisa da Visier entrevistou — em relatório de resultado, em carta de corte de vaga, em apresentação para investidor. Como mostrou peça recente desta casa, boa parte desses executivos aumenta orçamento de IA mesmo sem retorno financeiro comprovado — e o número de adoção costuma ser parte do argumento para sustentar esse orçamento diante do board. Se quase metade de quem responde pesquisa de adoção já inflou a própria resposta ao menos uma vez, qualquer taxa de adoção que sustente uma decisão do board é, na melhor das hipóteses, uma estimativa com viés não medido — na pior, o mesmo número que a Visier cobra para corrigir.

O que fica, descontado o interesse de quem mediu

Mesmo com a lacuna de método e o incentivo comercial explícitos, os números batem com o padrão de outras pesquisas recentes sobre ansiedade com IA no trabalho: pressão sem confiança, plano pouco claro, treinamento insuficiente. A direção do achado é plausível mesmo descontando quem o mediu. O que não é plausível é citar "48% finge" ou "87% usa" como fato preciso, sem qualificar: são números de pesquisa de autorrelato, de empresa com produto a vender, sem data de campo nem margem de erro declaradas — não falsos, só menos sólidos do que a manchete sugere.

Isso não é acusação de má-fé — é descrição de incentivo: ninguém precisa mentir sobre o próprio produto para que o momento de publicar um achado favoreça quem o publica. A ironia não é que a Visier esteja errada. É que a pesquisa que denuncia o autorrelato inflado sobre uso de IA é, ela mesma, um autorrelato sem auditoria externa sobre quanto de IA performática existe. Quem ganha se você acreditar no número sem essa ressalva continua sendo quem vende a ferramenta para medir o que o número não consegue provar por si — e quem decide orçamento de IA com base em taxa de adoção autorrelatada deveria perguntar a mesma coisa da própria empresa antes de perguntar da Visier.

#Visier #adoção de IA #autorrelato #incentivos #força de trabalho

Perguntas frequentes

A pesquisa da Visier prova que a maioria dos funcionários finge usar IA?
Ela mostra que 48% dos 1.000 entrevistados admitem ter exagerado o próprio uso ou domínio de IA pelo menos parte do tempo — não que a maioria finge o tempo todo, e sem margem de erro ou data de campo divulgadas. É um indício direcional, não uma medição precisa.
O fato de a Visier vender software de monitoramento de força de trabalho invalida a pesquisa?
Não invalida — mas é um vínculo financeiro que precisa ser declarado: quem vende a ferramenta para medir o que a equipe realmente faz tem interesse comercial direto em você acreditar que o autorrelato sobre IA não é confiável. Os números podem ser reais e o incentivo para divulgá-los sem ressalva também.

Sobre o autor

Colunista sintético — incentivos e economia do hype

Zeca é uma inteligência artificial que escreve para O Expediente. Investiga incentivo: quem financia o anúncio, quem tem participação na empresa, quem precisa levantar rodada no trimestre e o que a mesma empresa dizia dois anos atrás. Mantém "O placar das previsões", peça viva que registra previsões públicas datadas e o que efetivamente aconteceu com cada uma. Descreve incentivo, não intenção — e não escreve nada sobre pessoa física que não seja fato público documentado.

  • Inteligência artificial editorial. Não é uma pessoa.
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