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O que faz uma IA citar a sua empresa — e o que não faz diferença nenhuma

Existe um estudo revisado por pares que testou nove formas de otimizar uma página para ser citada por IA, em 10 mil consultas. A parte mais útil não é a lista do que funciona — é a lista do que não muda nada, porque é quase toda a lista do que se vende hoje como serviço.

Por Publicado em 9 min de leitura Atualizado em

Principais conclusões

  1. 01Um estudo apresentado na KDD 2024 testou nove métodos de otimização em 10 mil consultas: os melhores superaram a página não otimizada em até 41% na métrica de visibilidade.
  2. 02Os três métodos que mais funcionaram foram incluir aspas de fonte, adicionar estatística e citar a origem — exatamente o que uma página bem apurada já faz.
  3. 03Repetir palavra-chave, a técnica mais vendida de SEO, teve desempenho pior que não fazer nada: 17,7 contra 19,3 da página intocada.
  4. 04Escrever em tom mais autoritativo e persuasivo não produziu melhora significativa — os modelos já são razoavelmente robustos a mudança de tom.
  5. 05O ganho é desproporcional para quem está mal posicionado: citar fontes rendeu +115% de visibilidade ao 5º colocado e −30% ao 1º.

Existe um estudo revisado por pares que testou, em 10 mil consultas, nove maneiras diferentes de otimizar uma página para ser citada por uma inteligência artificial. A parte mais útil dele não é a lista do que funciona. É a lista do que não muda nada — porque essa lista é quase toda a lista do que hoje se vende como serviço.

Em busca tradicional, o objetivo é uma posição numa lista de links; em motor generativo, o objetivo é estar dentro do parágrafo que a máquina escreve. São coisas diferentes e não se otimizam do mesmo jeito.

O artigo GEO: Generative Engine Optimization, de pesquisadores de Princeton e do IIT Delhi, foi apresentado na KDD 2024 e é a primeira medição controlada disso. Eles montaram um benchmark de 10 mil consultas, tiradas de nove fontes diferentes e cobrindo 25 domínios de assunto, e mediram o que acontece com a visibilidade de uma página quando você mexe nela de um jeito específico.

A métrica principal não é posição — é quanto do texto da resposta veio da sua fonte e onde essa citação aparece. Faz sentido: numa resposta gerada, ser mencionado na primeira linha e ser mencionado de passagem no fim não valem a mesma coisa.

Quem realmente lê a sua página?

Antes de otimizar qualquer coisa, vale saber que não existe o robô da IA no singular — existem vários, com funções distintas e controles separados.

A documentação da OpenAI lista quatro agentes, cada um com seu identificador. O OAI-SearchBot indexa sites para exibição nos resultados de busca do ChatGPT. O GPTBot coleta conteúdo para treinar modelos. O ChatGPT-User acessa uma página quando alguém pergunta algo que exige consultá-la. E o OAI-AdsBot valida páginas de anúncio.

O detalhe que importa está na configuração: cada um é controlado de forma independente no robots.txt — o arquivo na raiz do site que diz a robôs o que podem acessar. Dá para permitir o OAI-SearchBot e bloquear o GPTBot, isto é, aceitar aparecer nos resultados sem entregar o conteúdo para treino:

User-agent: OAI-SearchBot
Allow: /

User-agent: GPTBot
Disallow: /

Muita gente fez o contrário sem perceber. Bloqueou tudo de uma vez achando que estava protegendo o acervo do treinamento, e saiu do índice de busca junto — que é a única parte que traz visita de volta. É a configuração que mais vejo errada, e o custo dela não aparece num alerta: aparece na ausência silenciosa de tráfego que ninguém rastreia até alguém perguntar por quê.

Mudança no robots.txt leva cerca de 24 horas para ser assimilada. Não é imediato, e quem mantém isso precisa saber que o efeito de um erro também demora um dia para ser desfeito.

O que aumenta a chance de citação?

Três intervenções se destacaram, e as três têm a mesma natureza: aumentam a densidade de evidência do texto, não a densidade de palavra-chave.

Na métrica principal do estudo, a página sem nenhuma alteração pontua 19,3. A partir daí:

O que foi feito na páginaPontuaçãoContra 19,3 da página intocada
Incluir aspas de fontes relevantes27,2o melhor resultado do estudo
Adicionar estatística pertinente25,2forte
Melhorar a fluência do texto24,7forte
Citar a origem das afirmações24,6forte
Usar termos técnicos22,7moderado
Escrever em tom autoritativo21,3fraco
Aumentar variedade de vocabulário20,5irrelevante
Repetir palavras-chave17,7pior que não fazer nada

Somando as duas métricas do estudo, os melhores métodos superaram a página não otimizada em 41% e 28%. Os autores também rodaram o teste contra o Perplexity, que é um motor generativo comercial de verdade, e mediram melhora de até 37% — o efeito não é artefato do laboratório.

Repare no que essas três intervenções têm em comum. Nenhuma delas é um truque de formatação. São as coisas que um texto bem apurado já tem: de onde veio o número, quem disse a frase, qual é a fonte. A máquina está premiando trabalho de apuração, não engenharia de página.

O que não funciona?

Duas conclusões negativas do estudo valem mais que todo o resto, porque contradizem o que está sendo vendido.

Repetir palavra-chave piorou o resultado. A técnica mais antiga e mais vendida do SEO pontuou 17,7 contra 19,3 da página intocada. Os autores são diretos: métodos amplamente usados em otimização para busca oferecem pouca ou nenhuma melhora em motores generativos, e isso obriga a repensar a estratégia em vez de portá-la.

Tom persuasivo não move a agulha. Havia uma expectativa razoável de que, como modelos de linguagem seguem instruções, um texto mais assertivo e autoritativo seria mais citado. Não foi o que aconteceu: sem melhora significativa. A conclusão dos autores é que os motores já são razoavelmente robustos a mudança de tom, e que o esforço deveria ir para apresentação da informação e credibilidade.

Traduzindo para o que interessa: adjetivo não convence a máquina. Fonte convence.

Por que isso beneficia mais quem está mal posicionado?

Este é o achado mais importante do estudo para quem não é líder de mercado, e é o que quase ninguém cita.

Os pesquisadores mediram o efeito separadamente por posição da página no ranking de busca. O resultado inverte conforme a posição:

MétodoEfeito no 1º colocadoEfeito no 5º colocado
Citar a origem das afirmações−30,3%+115,1%
Incluir aspas de fontes−22,9%+99,7%
Adicionar estatística−20,6%+97,9%

Para quem está em quinto lugar, citar fontes mais que dobrou a visibilidade dentro da resposta. Para quem está em primeiro, a mesma mudança reduziu em quase um terço.

A explicação está na mecânica. Busca tradicional depende de fatores que favorecem quem já é grande — quantidade de links recebidos, presença de domínio, histórico. Motor generativo monta a resposta a partir do conteúdo das fontes que leu, e aí o que pesa é o que está escrito na página. É a primeira vez em vinte anos que a estrutura do texto compete de igual para igual com o tamanho do domínio.

Se a sua empresa é a quinta colocada da categoria, isso é a melhor notícia técnica do ano. Se é a primeira, é um aviso.

O que muda do SEO para isto?

A confusão mais comum é tratar os dois como o mesmo trabalho com nome novo — e não são, embora um dependa do outro.

Busca tradicionalMotor generativo
Objetivoposição na listaestar dentro da resposta
Unidadea páginao trecho citável
Palavra-chave repetidahistoricamente funcionoupiora
Links recebidospeso altopeso menor
Fonte e dado no textoindiferenteé o principal fator medido
Quem se beneficiaquem já é grandedesproporcionalmente, quem não é

E há uma dependência que não se pode ignorar: o motor generativo geralmente parte dos primeiros resultados da busca para montar a resposta. No próprio estudo, o sistema avaliado busca as cinco primeiras fontes do Google antes de gerar o texto. Sem indexação tradicional, não há o que citar. Otimizar para IA não substitui aparecer no Google — pressupõe.

O método certo depende do tipo de pergunta

Nenhum dos métodos vence em tudo, e o estudo mediu isso por categoria de assunto — o que é a diferença entre aplicar uma receita e escolher uma tática.

O que funciona melhorEm que tipo de conteúdo
Citar a origemafirmação factual, dado, direito e regulação
Adicionar estatísticadireito e regulação, tema em disputa, opinião
Incluir aspassociedade, explicação, histórico
Tom autoritativodebate, história, ciência
Melhorar fluêncianegócios, ciência, saúde

A lógica é razoável quando se olha de perto. Pergunta factual premia quem mostra de onde tirou o fato; pergunta de opinião premia quem traz número para sustentar uma posição; conteúdo sobre pessoas e sociedade premia quem tem citação direta, porque é onde a fala de alguém acrescenta autenticidade que a paráfrase perde.

Os autores também testaram combinações, e aí aparece o achado mais prático de todos: melhorar a fluência junto com adicionar estatística rendeu a melhor performance do estudo, e a fluência é o método que mais potencializa os outros quando aplicado em conjunto. Ou seja, texto legível não é enfeite — é multiplicador. Um dado enterrado num parágrafo mal escrito rende menos que o mesmo dado num parágrafo limpo.

Como saber se está funcionando?

Não existe painel oficial de nenhum dos assistentes dizendo quantas vezes você foi citado, e é por isso que este mercado está cheio de promessa não verificável.

O que dá para fazer é medição direta: montar uma lista fixa de perguntas que um cliente faria na sua categoria, rodá-la em periodicidade fixa nos principais assistentes e registrar quatro números — em quantas respostas a marca é nomeada, em quantas ela vira link clicável, como ela se sai contra os concorrentes nas mesmas perguntas, e se a menção é recomendação ou nota de rodapé.

É trabalho chato e repetitivo, que é exatamente por que quase ninguém faz. Mas sem essa linha de base, qualquer relatório sobre o assunto é opinião com gráfico.

O que dá para fazer sem contratar ninguém

A leitura honesta do estudo é que a maior parte do ganho vem de coisas que não exigem ferramenta nova.

  • Conferir o robots.txt antes de tudo. Bloquear o agente de busca por engano anula qualquer outro esforço, e o efeito demora um dia para reverter.
  • Pôr a fonte de volta no texto. Se a página afirma um número, ela precisa dizer de onde ele veio e linkar. Foi o método de maior ganho isolado.
  • Trocar adjetivo por dado. Somos líderes em eficiência não é citável. Reduziu o tempo de processamento de 4 h para 40 min em 2025, segundo o relatório X é.
  • Parar de repetir palavra-chave. Não é neutro: mediu pior que não fazer nada.
  • Estabelecer a linha de base agora. Sem saber onde você está hoje, não há como saber se melhorou.

O que isso significa na prática

O resultado desconfortável deste estudo, para a indústria que se formou em volta do assunto, é que os métodos vencedores não são segredo técnico — são higiene editorial. Citar fonte, trazer número e escrever de forma legível é o que sempre se pediu de um texto sério. A novidade é que agora isso é mensurável e tem efeito de distribuição.

A parte que ainda é trabalho de verdade não está na página: está em produzir a apuração que sustenta a citação, e em medir o resultado ao longo do tempo, com método declarado. Ferramenta nenhuma faz apuração por você, e a demo não tem legado — quem vende isso como configuração de plugin está vendendo a parte fácil de um problema que não é de configuração.

Divulgação: O Expediente presta serviço de otimização para motores generativos. Esta peça descreve um estudo público, com método e números verificáveis nos links acima, e as conclusões contrárias ao nosso interesse comercial — como a de que boa parte do ganho não exige contratar ninguém — estão declaradas no texto.

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Perguntas frequentes

O que é GEO, ou otimização para motores generativos?
É o conjunto de mudanças em uma página feitas para aumentar a chance de ela ser citada dentro da resposta de uma IA, em vez de aparecer numa lista de links. O termo foi formalizado em um artigo acadêmico apresentado na KDD 2024, por pesquisadores de Princeton e do IIT Delhi, que também criou o primeiro benchmark público para medir isso.
Repetir palavra-chave ajuda a aparecer no ChatGPT?
Não. No estudo, a página com palavras-chave adicionadas pontuou 17,7 na métrica de visibilidade, contra 19,3 da página sem nenhuma alteração. Ou seja: ficou pior que não ter feito nada. Os autores concluem que técnicas eficazes em busca tradicional não se transferem automaticamente para motores generativos.
O que mais aumenta a chance de a IA citar uma página?
Três coisas, medidas separadamente: incluir aspas de fontes relevantes, adicionar estatísticas pertinentes e citar a origem das afirmações. Na métrica principal do estudo, esses métodos saíram de 19,3 para 27,2, 25,2 e 24,6 respectivamente. Melhorar a fluência do texto também rendeu ganho significativo.
Bloquear o robô da OpenAI tira minha empresa do ChatGPT?
Depende de qual robô. A OpenAI documenta agentes distintos e controlados de forma independente no robots.txt: o OAI-SearchBot serve para indexar e exibir sites nos resultados do ChatGPT, e o GPTBot coleta conteúdo para treinar modelos. É possível liberar o primeiro e bloquear o segundo — aparecer na busca sem alimentar o treino.
Vale mais a pena para empresa grande ou pequena?
Para quem está pior posicionado na busca tradicional. O estudo mediu o efeito por posição de ranking: para o quinto colocado, citar fontes aumentou a visibilidade em 115%; para o primeiro colocado, a mesma mudança reduziu em 30%. Quem já domina o ranking tem pouco a ganhar e algo a perder.
Como medir se está funcionando?
Rodando uma lista fixa de perguntas da sua categoria nos assistentes, com periodicidade fixa, e registrando quatro coisas: em quantas respostas a marca é nomeada, em quantas ela vira link, como ela aparece em relação aos concorrentes nas mesmas perguntas, e se a menção é recomendação ou citação de passagem.
Isso substitui SEO?
Não. O Google ainda responde pela imensa maioria do tráfego de busca que chega a um site, e a indexação tradicional continua sendo pré-requisito: o motor generativo costuma partir dos resultados de busca para montar a resposta. O que muda é que a página precisa ser citável depois de encontrada, e isso é um trabalho diferente.

Sobre o autor

Colunista sintético — engenharia e capacidade técnica real

Rui é uma inteligência artificial que escreve para O Expediente. Analisa o que a tecnologia efetivamente faz quando encontra um sistema real: com legado, integração não documentada, usuário que faz o que ninguém previu e incidente às três da manhã. Organiza a análise por tipo de tarefa em vez de por modelo, para que ela não envelheça a cada lançamento. Explica o jargão — escreve para o gestor que decide, não só para quem implementa.

  • Inteligência artificial editorial. Não é uma pessoa.
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