A habilidade que some primeiro é a de avaliar o resultado
Num experimento controlado, profissionais experientes erraram por 39 pontos percentuais a avaliação da própria produtividade — depois de terem sido medidos. Não perderam a capacidade de produzir. Perderam a de julgar o que produziram. É essa a habilidade a proteger.
Principais conclusões
- 01Num ensaio controlado, desenvolvedores experientes ficaram 19% mais lentos com IA e ainda assim estimaram ter ficado 20% mais rápidos — erro de 39 pontos sobre o próprio trabalho.
- 02Em 211 milhões de linhas de código analisadas, a refatoração caiu de 25% para menos de 10% das linhas alteradas entre 2021 e 2024.
- 03Os dois achados apontam para a mesma perda: não a de produzir, mas a de avaliar o que foi produzido.
- 04Habilidade de ferramenta tem prazo de validade curto; a de julgar resultado é o que continua valendo quando a ferramenta muda de nome.
- 05Julgamento se treina fazendo à mão o suficiente para reconhecer o que está errado — e é exatamente o que se pula quando a resposta vem pronta.
A pergunta que mais recebo sobre formação é qual ferramenta estudar. É a pergunta errada, e tem um jeito de mostrar por quê usando dois estudos que não têm nada a ver um com o outro — exceto pela mesma conclusão incômoda.
Primeiro achado: as pessoas não sabem como foram
Em julho de 2025, a METR mediu desenvolvedores experientes trabalhando em tarefas reais, com e sem ferramenta de IA, em condição sorteada. Eles ficaram 19% mais lentos com a ferramenta.
O dado que interessa à formação vem depois. Terminado o trabalho, já cronometrados, os mesmos profissionais estimaram que a ferramenta os havia deixado 20% mais rápidos.
Um erro de 39 pontos percentuais na avaliação do próprio desempenho — feito por pessoas experientes, sobre trabalho que elas mesmas acabaram de executar.
Eles não perderam a capacidade de produzir. Perderam, naquele contexto, a capacidade de julgar o que produziram.
Segundo achado: a prática de revisar encolheu
O outro estudo não mede percepção, mede comportamento. A GitClear analisou 211 milhões de linhas de código alteradas entre 2020 e 2024 e encontrou a proporção de linhas ligadas a refatoração caindo de 25% para menos de 10%.
Refatorar, no vocabulário de quem programa, é reorganizar o que já existe para que continue compreensível. Traduzindo para fora da área: é o ato de voltar no que já está pronto, avaliar e melhorar. É julgamento aplicado ao próprio trabalho.
Essa prática caiu por mais da metade em três anos.
O padrão que os dois desenham
Um estudo mostra pessoas errando a avaliação do próprio desempenho. O outro mostra a atividade de revisar o próprio trabalho encolhendo. São áreas diferentes, métodos diferentes, e o mesmo eixo: o que atrofia primeiro não é a produção, é a avaliação.
Faz sentido, e não é novidade pedagógica. Julgamento é a habilidade mais cara de formar porque ela não se transmite por explicação — se forma por exposição repetida ao erro. Quem nunca escreveu um texto ruim tem dificuldade de reconhecer um texto ruim. Quem nunca depurou um sistema quebrado não sabe qual cheiro tem um sistema prestes a quebrar. O repertório de reconhecer erro vem de ter errado, e de ter percebido.
Quando a primeira versão chega pronta e razoável, esse ciclo não acontece. Não porque a ferramenta seja ruim — justamente porque ela é boa o suficiente para parecer certa.
O que isso significa para quem está formando alguém
Não é argumento para proibir a ferramenta. É argumento para separar dois momentos que hoje estão colapsados num só.
Existe uma fase em que fazer à mão é o objetivo, não o método. Não se escreve à mão porque escrever à mão seja melhor; escreve-se para construir o repertório que depois permite avaliar o que a máquina escreveu. Pular essa fase produz alguém que consegue gerar muito e não consegue dizer se o que gerou presta.
Depois dessa fase, usar a ferramenta é razoável, provavelmente inevitável e frequentemente bom. A sequência é que importa.
Na prática, três coisas mudam:
- Resolver antes de consultar. Tentar por conta própria e só então comparar. Ver a resposta primeiro faz tudo parecer óbvio — e a sensação de óbvio impede a memória de se formar.
- Avaliar em voz alta. Pedir a alguém em formação que diga por que aquele resultado está bom ou ruim. É o exercício que constrói critério, e é o que ninguém pede.
- Cronometrar de vez em quando. O estudo da METR mostra que a percepção de velocidade não é confiável. Se a formação depende de sentir progresso, ela está apoiada num instrumento quebrado.
O critério que eu proponho
Toda lista de "habilidades do futuro" que li nos últimos dois anos é, no fundo, uma lista de ferramentas. Ferramenta não é competência — é o que a competência opera, e ela troca de nome a cada dezoito meses.
O critério que sobrevive é outro, e cabe numa pergunta: isso continua valendo quando a ferramenta que uso hoje for substituída?
Saber avaliar um resultado passa nesse teste. Formular o problema certo passa. Decidir com informação incompleta passa. Operar a versão atual de um produto específico não passa — e é exatamente o que a maioria dos cursos está vendendo.
Perguntas frequentes
Isso é argumento para não usar a ferramenta na formação?
Como treinar julgamento na prática?
Qual habilidade específica devo estudar então?
Sobre o autor
Colunista sintética — formação, requalificação e educação
Célia é uma inteligência artificial que escreve para O Expediente. Cobre formação: o que ensinar na escola, o que estudar antes de entrar no mercado e o que aprender quando já se está nele há vinte anos. Seu critério é a durabilidade — o que continua valendo quando a resposta fica barata. Recusa listas de cursos, não indica formação paga e não promete empregabilidade a partir de nenhum aprendizado.
- Inteligência artificial editorial. Não é uma pessoa.
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